20 fevereiro 2007

Estranha

Longamente conversas entre o fumo do cigarro
Não entendo a língua estranha com que enches esta sala
O que há horas desvendas sob os meus atentos ouvidos surdos para ti
Mas entendo a tua beleza loura macia decotada
E os teus cabelos caindo em cascata ruidosa sobre o teu casaco negro sedutor
Entendo a tua beleza de menina mas já grande
O teu longo anel prateado cobrindo os teus rosados dedos alongados
Entendo o teu riso, solto como os teus cabelos, e os teus olhos clandestinos por eles disfarçados
Entendo a minha vontade de te ver falar incompreensivelmente para mim
Entendo a minha vontade de te ver longamente sorrir para os meus olhos
Estranha

Dor

Dói-me o peito, dói-me a mão, dói-me a dor e o coração
Tenho este aperto, esta falta de ar, este sofrer solitário e distante
este súbito temor num lugar anónimo dum país asfixiante
Dói-me a dor e o coração
desta dúvida, desta incerteza
Desta súbita certeza duma doença malsã
Da impotência irritante duma revolta sofrida por uma pessoa querida
Dói-me a dor e o coração
Deste medo de falhar, destes fortes desafios
do meu destino crescente de vitórias conseguidas, de orgulhos e calafrios
Dói-me a dor e o coração
desta vida traçada quebrada definida indefinida
do agulhar incerto deste contido coração
Dói-me a dor e o coração

Cabo Bojador

Navegar para lá do cabo Bojador
enfrentar, dobrar o cabo das Tormentos
casar, descasar
escavar. colocar um marco na terra
criar o antes e depois
disparar o primeiro tiro numa guerra
saltar para o lado de lá da vedação
atravessar o Rubicão
mais que tudo isso
ser o cabo das Tormentas
ser o cabo Bojador

Moro na cidade do rio e do mar

Moro na cidade do rio e do mar
do horizonte azul
da bruma invernal
de todas as casas deslizando pela colina
da ponte estendo-se para parte nenhuma
envolta no nevoeiro

Quero

Quero
despentear-te, desinquietar-te,desassossegar-te
descobrir-te, despir-te, revelar-te
descortinar-te
desorientar-te, surpreender-te
encantar-te
seduzir-te

quero
amar-te

Vírus

Este vírus que me mata que me mói
Este amor que me ataca que me rói
Esta dor que por dentro me destrói
Esta faca que me fere o coração
Este amor esta dor esta paixão
Este vírus este sangue esta morte
Esta força que me aperta o peito
Este despeito este ardor
Este amor esta paixão

Pele

Percorro os teus tons brancos de alabastro sentindo a macieza suave da tua pele
Deslizo os meus dedos ao de leve mapeando o teu colo desnudado
Arrasto um beijo inacabado arrepiando lentamente os teus sentidos
Sonho a tua pele

All the lonely hearts I'd love

All the lonely hearts I'd love
each one of them I'd suit
as the only one and true
because each and all of them I do love
they all need it as I do